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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Companhia Elétrica


Hoje você acordou as dez horas da manhã e tomou o seu café - o que é modo de falar, afinal, pouca gente hoje em dia sabe o que realmente significa esse ritual de sentar-se à mesa com diversas opções para uma primeira refeição balanceada e saudável. E pode haver até três motivos para que isso aconteça.

O primeiro deles é o fato de que um bom café da manhã custa caro. Estamos falando de uma mesa que contém tudo o que os melhores nutricionistas que já estiveram no Globo Reporter te indicam consumir para que se tenha uma vida saudável. Isso inclui frutas, cereais, sucos, etc.

O segundo motivo, para que essa cerimônia não ocorra, é justamente o tempo que se leva para arrumar uma mesa dessa magnetude - supondo que você não tenha uma empregada doméstica, é claro. - É o tempo para preparar, pôr à mesa, consumir e arrumar a bagunça toda. Tempo que você não tem!

O terceiro motivo é que, por essa falta de tempo, você se acostuma a tomar somente aquele copo básico de leite com Nescau. Você se acostuma a não querer comer muito pela manhã. Acaba que muita gente nem ao menos isso ingere.

Mas o que fazemos depois disso que não fazemos?

Quem tem que trabalhar, vai trabalhar; quem tem que estudar, vai estudar; e quem não tem que fazer nada, é provável que ainda esteja na cama dormindo. Afinal, qual o louco que acorda cedo só para tomar um copo de leite? - Fala sério.

Mas digamos que você seja um desses doidos por copo de leite com Nescau. Depois de se deliciar o que vai fazer? Provavelmente ligar o computador, e, mesmo que você não tenha nada para fazer nele, você vai ligar - acredite!

Algo que se repetirá na parte da tarde... Da noite... E, claro, na parte da madrugada. Mesmo que você não tenha o que fazer nele, você ai entrar e vai achar algo. - Já dizia o ditado "quem procura acha".

Mas, se de repente faltar luz? - o.O

"MEU DEUS! E agora???"

Caramba! Isso acontece e provavelmente quando acontece é sempre na hora que você precisava visitar seu Orkut, Facebook, Twitter, usar o email, instalar aquele jogo que demorou mais de dias para baixar via Torrent - que você pegou pirateado lá no Piratebay (aham, pensa que não sei?) - ou, simplesmente, fazer uma pesquisa - aquela que você usou como desculpa para ligar o computador, mas, por ser portador de mal de parkinson, clicou no ícone do MSN ao invés do Firefox - porque Explorer ninguém merece, né? 

E como resolve?

Não se resolve amigo!

Você senta no sofá e olha para a sala - isso se a falta de luz for durante o dia. - Levanta, vai até a cozinha, abre a geladeira, mas não encontra nada ali. E assim, como uma barata tonta, você percorre a casa em busca do que fazer. Até entrar no banheiro e acender a luz.

Mas que idiota. Não tem luz!

Daí você sai em busca de algo que nem sabe bem o que. Acha um livro que você ganhou da sua tia ou de algum parente - aquele mesmo que você começou a ler faz mais de um ano, mas que, por algum motivo, parou em um terço do coitado. - Você o abre e vai ler.

Cara, se você tiver um pouco de sorte a energia elétrica nao voltará tão cedo. Reze para que ela não volte. Não pelo menos até que você perceba o quanto a vida passa rápido quando você vive na eletricidade. Nas primeiras horas você vai sentir-se angustiado. Vai gritar palavrões pela casa. Mas calma, isso são apenas sintomas da abstinência elétrica.

É como você ser fumante e, do nada, todos os butecos do mundo resolvem fechar por causa do dia de um santo qualquer - aquele que sua tia e a vizinha são devotas. - Mas que bosta, hein? Bem quando você precisava relaxar com o seu cigarrinho...

Como eu falei, isso passa. Logo você vai perceber como é legal aquele silêncio. Como é bom estar com você mesmo. Logo vai encontrar outras coisas para ocupar o tempo. Coisas, talvez, até mesmo mais interessantes. Como tomar aquele café da tarde completo em família. Afinal, ninguém vai ter que sair correndo para assistir a novela das Seis, checar os recados no mural do Facebook, ou assistir o telejornal. 

É nessa hora que alguém fala com alguém... É nessa hora que as pessoas interagem de verdade. Tem-se tempo de sobra para saber como foi o trabalho do seu pai, como foi o dia do seu filho desocupado, o que sua mãe fez... Nessas horas as pessoas se obrigam a falar, e não há outra forma, há? Você pergunta até mesmo se a criatura já tomou a injeção contra febre amarela, e se ela está se protegendo da Gripe do Ganso Louco - ou algúm outro surto viral qualquer, mesmo que nem mesmo exista.

Até seu cachorro, que você não via há semanas, você se lembra de ir ver... - se ainda existe.

A falta de energia é ótima. Prova que o ser humano se adapta fácil às diversas situações. Prova que podemos sobreviver a essas catástrofes. Prova que a comunicação interpessoal convencional e a criatividade ainda existem. Mas claro, se a gente se esforçar.

Analise! Em tempos em que falam que as pessoas andam cada vez mais individualistas e egoístas, que companhias estamos elegendo? Não estaríamos cada vez mais buscando companhias irreais? Preenchendo nossos dias com coisas que apenas somos obrigados a preencher porque nós mesmos inventamos e levamos a sério? 

Ninguém tem falta de tempo para dar atenção a alguém porque tem que ler os emails, atualizar seu blog ou navegar na internet. Endereços de e-mails não se criaram sozinhos e nem mesmo os blogs surgiram com a criação do universo. Se coisas cada vez mais virtuais nos tiram o tempo tão precioso que nos parecia ser maior na infância, é porque estamos cada vez mais nos entupindo com deveres imaginários - e estúpidos. 

Superlotamos nossa agenda diária com questões virtuais, pois, a fuga da realidade, ainda é mais fácil do que vivê-la.

"Viva" a falta de luz, ou morra com ela...


Originalmente postada em 09/05/2009


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Quatro Partes: Sobre a Maturidade



Parte I
A referência

"Raros são aqueles que decidem após madura reflexão; os outros andam ao sabor das ondas e, longe de se conduzirem, deixam-se levar pelos primeiros" 
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Parte II
A poesia

"Como a maçã vermelha sangue que encontra-se na árvore,
a maturidade é o resultado de lentos processos, que,
podem, ou não, ter sido dolorosos ao fruto da sabedoria.

São dias e noites longas ao vento, face a face o frio,
chuvas, calor e geadas...

Pois a maçã, antes de ser fruto, tivera que amadurecer
para a conquista da sabedoria de uma maçã
portadora de exuberante coloração e delicioso sabor."
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Parte III
A citação

"Quando calejado, o homem nem sempre aprende a lidar com suas angústias e problemas; mas, aquele que um dia aprendeu a encontrar, senão a solução, mas os melhores caminhos, foi, mesmo que por um dia, calejado por seus percalços."
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Parte IV
O monólogo

Ninguém nasce pronto ou maduro, a maturidade deve ser conquistada através do autoconhecimento e de etapas que, algumas, repetiram-se ao longo da vida humana. Trata-se de reconhecermos os melhores caminhos em meio a caminhos estranhos, anteriormente avistados. Maturidade consiste em sabermos resolver as divergências sem agressividade ou destruição, mas através da transformação do nosso entendimento.

Maturidade é termos paciência, e as vezes abnegação; atendendo às necessidades alheias, tendo que para isso abrir mão de prazeres imediatos, vislumbrando a longo prazo seus efeitos negativos, contrabalanceando-os com os efeitos positivos do ato de abdicação.

Maturidade não é o dom de exercermos a liberdade por sabê-la como direito, mas sabermos quando dever-se-á exercê-la e quando não. Significa sermos humildes, construindo credibilidade ao cumprirmos acordos selados. Maturidade, antes de tudo, é saber lidar, aprendendo a viver em paz com o imutável.

São muitos de nós que nos dizemos maduros, capazes de lidar com as mais diversas verdades, mas é fato, que quando é chegada a hora, falhamos por não sabermos lidar com aquilo que em nós ainda não encontra-se em pleno equilíbrio e paz interior. Ao contrário do que acredita-se, a idade e o tempo não podem trazer maturidade àquilo que um dia deseja ser fruto, pois o fruto, como seu nome sugere, é o resultado de seu próprio amadurecimento. Não é o tempo que faz amadurecer, mas o fruto em si que se amadurece através do que aceita receber da árvore da vida, para lidar e tirar o melhor proveito. 

O tempo, em si, apenas é capaz de nos fornecer desafios e etapas a serem conquistadas, sendo nem mesmos estas, sozinhas, capazes de nos fazer maduros. Somos os únicos que o podemos fazer. Isso dá-se através da vontade de querer compreender e vencer esses processos e suas verdades, que nos são jogadas na cara.

E como diz Sêneca, "andar ao sabor das ondas", é o mesmo que andar ao sabor de nossos sentimentos e emoções. Estes servem para dizer-nos o quanto nos encontramos vivos e pulsantes, sendo sintomas oriundos de corpos externos; jamais servirão de base para a maturidade enquanto não escutarmos seus reais motivos de existirem, aceitando-os primeiramente, para então, ao sabê-los, podermos em algum momento encontrarmos seu melhor remédio e tratamento.

O processo de maturidade dá-se, de nenhuma outra forma, senão, pelo início da consciência de que é necessário querer essas descobertas, realizando a auto análise e análise das situações, prezando a resolução das mais diversas disposições em nossos caminhos.

Isso chama-se maturidade, e é imaturo julgar quem ainda não a possui em algum sentido da vida. Imaturo de nossa parte, por não sabermos fazer a análise de motivos alheios, ou se o fizermos, não os aceitarmos pelo fato de estes serem diferentes do que concebemos como nossas verdades.

Todos, sem exceção, somos imaturos em diversos sentidos da existência humana, e Todos somos maduros de alguma forma. Não reconhecermos ou julgarmos isso, além de imaturo é a prova de que nos encontramos distantes de compreendermos o real significado do amor incondicional a nós mesmos e ao próximo.

sábado, 11 de junho de 2011

O Tempo Destrói Tudo II

Cena do filme Irreversível de Gaspar Noé

Sinapses!

Sinapses são as regiões de comunicação entre os neurônios, ou mesmo entre neurônios e células musculares e epiteliais glandulares. Sinapses nervosas são os pontos onde as extremidades de neurônios vizinhos se encontram e o estímulo passa de um neurônio para o seguinte por meio de mediadores físico-químicos, os neurotransmissores.

Imaginemos que somos todos neurônios, e todas as vezes que nos encontramos - esbarramos, debatemos - por qualquer motivo que seja, acaso ou destino, fazemos sinapse. Ou seja, todos os dias quando falamos ou mantemos contato com outros seres, independente da natureza, nos comunicamos. Passamos uma informação para frente que irá ser passada adiante de acordo com a importância que cada um de nós (neurônios) damos à informação em questão. Isso nos diz que, assim como os organismos ou partes que habitam em nós trabalham - ainda de uma forma um pouco diferente - o mesmo é o que nós fazemos, em resumo: nos comunicamos, criamos e compartilhamos.

Talvez não esteja bem claro onde quero chegar mas, o princípio é o seguinte: somos uma rede interligada que une-se involuntariamente, ou voluntariamente para construir informação, e nesta informação está inserido o conhecimento, a cultura, a política, e, em geral, as ideologias que um ser humano possui. Ideologias essas que são alimentadas por outras informações que chegam ou que chegaram antes de nós termos conhecimento de nossa própria existência.

O fato é, se pensarmos em microcosmos, talvez poderíamos ter uma idéia macrocosmica das coisas. Até hoje nos perguntamos de onde viemos e para onde iremos. Quem criou o universo? A que serve a nossa existência? Que energia alimenta toda a vida na terra e o funcionamento do universo? Pois bem. Se você quer saber como será o futuro, deve viajar no tempo em direção ao futuro, para quando voltar, ter uma noção do que lá adiante ocorrerá. E penso que se nós queremos ter uma idéia do que pode ser maior do que nós mesmos, deveríamos nos colocar no lugar de um ser que é maior do que aquilo que o compõe.

Exemplificando melhor, pensaria eu então como um neurônio - veja que redundância, mas enfim - se "eu" neurônio tivesse consciência do meu universo, eu saberia que nasci, e durante minha existência me prestei a passar informações adiante através de sinapses para outros neurônios. Eu, como neurônio, não saberia onde essa informação iria chegar, mas saberia que em algum lugar iria, e, possivelmente ainda, essa mesma informação que encaminhei, retornaria para mim de uma forma reciclada. Agora, eu, pensando como ser humano, sei que essa informação que os neurônios transmitem são passados para que meu corpo e meu cérebro trabalhem, na maior parte das vezes, sob a minha vontade.

Em suma, simplesmente, talvez, a razão de estarmos aqui seja a mesma de nossos neurônios. Puramente passar adiante, deixando para a posteridade um legado de informações que modificam-se lentamente através dos tempos de acordo com as necessidades de cada época que se vive. Pode ser que eu seja questionado sobre qual o motivo final de tudo isso. Quem sabe seja, também, assim como os neurônios, realizar a movimentação de uma máquina muito maior, para a qual nós não temos consciência que trabalhamos.

Ainda assim, se por um lado o tempo destrói, provavelmente haja, nesse processo destrutivo, a necessidade da destruição como um equilíbrio contínuo para que se possa ver renascer no futuro a continuidade que, no passado deste futuro, nos foi, por necessidade - de adaptação ou por falta de opção - obrigatoriamente retirado.

"Fato é que seremos criados, destruídos e reciclados. Se teremos consciência desses processos ou não, além de irrelevante - não para nós, mas para o universo - permanecerá uma incógnita até que se prove o contrário"


quarta-feira, 25 de maio de 2011

Conselhos de Rilke VII


"Se não há nenhuma comunhão entre os homens e você, procure estar próximo das coisas, que não o abandonarão; ainda lhe restam as noites e os ventos que passam pelas árvores e sobre muitas terras; entre as coisas e os animais, tudo ainda é pleno de acontecimentos em que se pode tomar parte; e as crianças ainda são como você era quando criança, igualmente tristes e igualmente felizes. Quando pensar em sua infância, viva de novo entre elas, de modo que os adultos não sejam nada e suas virtudes não tenham valor algum"

Rilke
Roma, 23 de dezembro de 1903

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A solidão é um medo concretizado nos dias de hoje onde a múltipla aparição em diferentes meios de comunicação é essencial para que possa sentir-se melhor acompanhado, ou neste caso, menos solitário. Já tive amigos que vieram visitar-me e trouxeram seus notebooks, sentaram-se no sofá da minha sala, conectaram-se à minha rede sem fio de internet e iniciaram conversas com seus amigos virtuais através de softwares de bate-papo. Mais incrível ainda foi vê-los comunicando-se entre si através destes meios, uma vez eles estando no mesmo recinto.

Somos solitários, temos medos da solidão, não a queremos, e, ainda assim, fazemos o possível para continuarmos sozinhos. Honestamente não acredito na possibilidade de o virtual preencher meu dia de uma forma saudável. Sempre será apenas uma forma de complementar, mas jamais de dar sustento às minhas relações.

Nunca fui uma criança que passava o dia inteiro na rua com os amigos, ainda assim, dividi meu tempo de criança entre a televisão, a família e os amigos do bairro. Lembro-me de ir para escola, quando não havia ainda a internet, smartphones, ou o Twitter. Nós estudávamos e no intervalo tínhamos recreação com esporte ou ficávamos apenas conversando com os colegas. Chegávamos da escola, almoçávamos assistindo Chaves, íamos às ruas brincar, correr, andar de bicicleta, entre outras coisas.

O objetivo não é fazer aqui uma análise saudosista, comparando um tempo com um outro, no sentido de degradar esse novo em que nos encontramos. Todo tempo tem suas características e devemos aprender a compreendê-lo. Porém, compreendê-lo não é o mesmo que cruzarmos os braços diante da degradação da qualidade de nossas vivências pessoais. Todas as gerações carregarão seus traumas e virtudes.  O acréscimo de nossa geração provavelmente será a concretização final da globalização, já nosso déficit deverá ser a má qualidade de vida que isso nos trará.

O problema em si nunca esteve nos meios ou condições de se alcançar quaisquer coisas, afinal, um meio, sem um utilizador é só um meio que resultará em nenhum resultado. O problema somos nós, utilizadores, agentes no meio.

Existem muitos instrumentos cirúrgicos e há de se saber qual usar, quando, onde e porquê. Nossa sociedade está neste momento, em uma mesa de cirurgia. Estamos abertos sobre ela na espera de uma finalização, um último encaminhamento. Realmente não saberia dizer se estamos finalizando a operação com o melhor instrumento. Isso,  só o tempo dirá.

Reflito sobre essa mensagem de Rilke do ano de 1903, um momento onde contemplar as estrelas era uma experiência de trocas intensas e profundas com o divino. Onde escutar o vento uivar durante as madrugadas era aterrorizante, e, ao mesmo tempo, encantador. Era um tempo onde o tempo, que não existe, existia. Podíamos contemplar uma ave e seu canto, o entardecer, o amanhecer. Coisas simples que nos proporcianavam, mesmo nos momentos de solidão, o saber de que nunca se está a sós. O saber de que a Terra e o Universo são Deuses vivos e com vontades próprias. A falta de comunicação de hoje e nossa solidão, não são frutos da tecnologia temos disponível ao nosso alcance, mas da falta de conhecimento de nossa própria essência e interação com nossas próprias raízes.

Lembremos que somos animais sexuados, que multiplicam-se da forma mais mundana possível. E é através dessa forma que multiplicamos a vida. Através da troca concretizada! É da comunicação real que se institui a vida. E, isso, deveria ser prova irrefutável de que a transferência de nossas vidas para o virtual - de forma completa e total - não nos fará mais vivos, lembrados e menos solitários. Nos fará, apenas, mais virtualizados.

Óde à vida, à solidão do ser com o universo, à comunicação dos seres com os seres, à criança que existiu um dia em nós.



quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Tempo Destrói Tudo... I

Irreversível - Gaspar Noé

Há não muito, assisti ao filme Irreversível de Gaspar Noé. Não quero aqui discutir o filme em si. Apenas o cito pois, no final, aparece uma mensagem que seria mais ou menos isso: O Tempo Destrói Tudo.

Honestamente não sei dizer se o Tempo destrói. Talvez destruir algo ou melhorar algo seja um ponto de vista particular demasiado para se afirmar assim, de uma forma tão generalizada. Mas, de certa forma: sim, o Tempo destrói tudo - nossa beleza, nossas forças, a sensibilidade, a identidade... Talvez o tempo estrague nosso dia, nossos ideais, nossos relacionamentos, enfim, nossas memórias, nossas células, nossa integridade.

Sempre costumo dizer que o tempo é uma ilusão e que não existe. Se ele não existe, não pode ser responsável por nenhuma ação. Logo, não seria o tempo que destrói, mas sim, os outros e nós mesmos que destruímos.

Envelheço e me parece cada dia mais difícil agregar boas coisas. Não que não seja possível, mas, a enxurrada de coisas desagradáveis que deve-se lidar acaba superando as boas. Não refiro-me as coisas materiais ou esse tipo de bem estar, mas sim de coisas mais emocionais e espirituais. A paz de se poder tomar um chimarrão no parque da redenção, conviver com pessoas que não estão interessadas na sua posição profissional ou social, mas na sua companhia.

Conforme o tempo vai passando, fica mais complicado saber quem deve permanecer na sua vida e saber exatamente quem você é. E de repente, sei lá, você se descobre um monstro capaz de coisas que sempre julgou errado. Até que ponto, o espaço e o "Tempo" podem acabar nos influenciando a fazer coisas que não gostaríamos? Quantas vezes não nos deixamos levar pela "onda", sem perceber?

Não posso afirmar, por não saber como eram as coisas cinquenta anos atrás. Se as pessoas eram, de fato, ou apenas fingiam ser íntegras. Nascemos tão puros, nos tornamos adultos que não gostaríamos e envelhecemos tentando nos redimir.

Perguntar sobre onde está o respeito próprio é um tanto piegas e já passou da hora de questionar quaisquer coisas sobre nós mesmos e a forma como temos feito esse mundo acontecer. O "Tempo", que não existe , é o que mais já nos foi dado. Já é passada a hora das perguntas. Se ainda não descobrimos nada, ou não praticamos nada do que estivemos aprendendo, então é porque o Tempo destruiu tudo mesmo, e nós é quem destruímos o tempo.



segunda-feira, 9 de maio de 2011

Conselhos de Rilke VI


O que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza?

Rilke
Roma 23 de dezembro de 1903
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Não sei se me encontro apto a responder o questionamento de Rilke. A solidão é um tema tão banalizado como o amor e a fé. Talvez, o que eu venha dizer não seja além de banal. Por outro lado, poderia então eu falar de grandeza?

Meus olhos costumam entender que grandeza é tudo aquilo que eles vêem e aparenta ser maior do que eles mesmos. Meus ouvidos entendem que grandeza é todo o som que não se ouve início e nem final. Para minha pele, grandeza é tudo o que não consegue alcançar por completo. Já, minha língua, sente o gosto da grandeza quando tudo aquilo que prova torna-se indecifrável. Minhas narinas aspiram a grandiosidade quando o que aspiram é maior do que a capacidade de meus pulmões aspirarem.

É o céu,
O silêncio,
A matéria.
É o nada
e o ar.

Talvez, Rilke tenha razão ao relacionar a solidão com a grandeza. Não que uma pessoa estar sob o céu azul, em silêncio, somente ela e nada além de sua respiração seja a figura perfeita que virá a exemplificar o sentido de encontrar-se a sós. Quem nunca esteve em lugares com muitas pessoas e sentiu-se só, que afirme o contrário dessa possibilidade.

Para estar solitário basta que não se veja nenhum ser onde existem centenas, que não se escute nenhum som quando tudo o que se escuta é o mesmo som. Basta fazer com que tudo signifique nada para você, e então estarás a sós em sua grandeza. Daí, talvez, o silêncio não seja a ausência do som, mas sim um som que há muito estamos acostumados a escutar em meio a outros ruídos.

Grandeza? Quem sabe, o momento que eu realmente a sinta seja naquele o qual pude expandir minha mente através dos céus. Quando senti o ar invadir meu ser e sentir-me afogado com sua abundância. Quando não pude escutar além de minha própria pulsação.

Querer a solidão não deve significar que se quer ficar longe dos nossos desafios, dos inimigos, ou recluso pelo medo de relacionar-se e arriscar ferir-se. Deve significar, apenas, que se quer estar em sua própria companhia.

Não há nada maior e mais belo em nossas vidas do que o que vem de dentro de nós. Nada poderia ser mais grandioso do que nossa própria vida, pois, ao deixarmos de existir, aquilo, que mais grandioso consideramos haver no universo, seria incapaz de resistir e existir, para nós, perante a nossa própria ausência.

"Se as colinas que vejo são grandiosas, são grandiosas porque assim as vejo".

"Se a solidão nos faz sentir-nos pequenos é porque olhamos para a grandiosidade de nosso exterior, esquecendo-nos de enxergar o infinito que habita em nós".




quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre Rótulos e Classificações


Como sempre digo, o pós-modernismo se serve disso.

De caos.

Acredito, cada vez mais, que a sua passagem entre nós será rápida, se comparado com outros momentos da humanidade. É preciso o caos para que possamos repensar a ordem das coisas. É como um guarda roupa que estava arrumado com as camisas separadas por cores. Conforme o uso, as cores foram misturando-se ao retornarem da  lavanderia. Chega então um dia em que abrimos o guarda roupa e não sabemos mais que coisas de real valor e úteis temos guardadas, nem como as temos. É preciso tirar tudo lá de dentro, jogar para fora e reorganizar conforme nossa experiência do que funciona e do que não funciona na especialidade de se organizar e guardar roupas. Talvez o resultado sejam camisas separadas não mais por cores mas por mangas curtas e mangas longas. Ainda assim, pode ser que futuramente percebamos que o novo sistema não funcione tão bem o quando se esperava e voltemos a nos perder no caos.

O importante, em tudo isso, não é sabermos organizar, como vamos organizar ou quantas vezes teremos que organizar as coisas e nossas vidas, mas acharmos a forma mais adequada de convivermos e utilizarmos essas camisas. Isso sim, é extremamente pessoal e o direito de o ser vai até o limite em que invade os direitos de outrem. Isso sim refletirá no nosso bem estar, na nossa produtividade e no nosso amadurecimento.

Somos meros fragmentos de uma gigantesca cadeia de conhecimento. Não tenhamos a pretensão de sermos mais do que isso, pois não somos e nem seremos. Independente de sistemas, pensamentos ou rótulos que somos portadores e propagadores, tenhamos em mente que somos reflexo de nossos pensamentos e não eles de nós.

É e será merecido a cada cabeça o chapéu que a esta servir.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Carnaval

Torre de Babel de Bruegel: utopia não concretizada

Não sei exatamente o motivo de eu não gostar de carnaval, mas creio que o carnaval vem a calhar com o momento que estamos vivendo, "A Crise do Modernismo". Entretanto, a crise do modernismo já existe há quase meio século e agora a denominam de Pós-modernismo. Uma palavra que me persegue, atrelada ao ar que eu respiro.

Já é hora de acabar com essa fase e passarmos para a próxima. Independentemente da existência de carnavais, temos que repensar seriamente o que os signos representam em nossa vida e reeducarmos os seres humanos quanto ao verdadeiro significado, e respeito, às palavras devoção, prosperidade, beleza, amor, caridade, fé e até mesmo à própria palavra respeito. Afinal de contas, o que somos aqui, nessa rede interligada? A que nos prestamos?

Somos freqüentadores e usuários de blogs, fazemos comentários, assinamos petições on-lines, participamos de movimentos, compartilhamos idéias e ideais, compartilhamos coisas e coisas, e a verdade é que só fazemos números. Números para nós mesmos.

Estamos em um momento em que o ser humano volta-se para si mesmo e apenas para si. Não se vê mais união e nem se entende o verdadeiro significado da palavra e do ato de unir-se a algo ou alguém. Não se compreende as seriedades. As amizades são compartilhadas, os livros, as músicas, as coisas em geral, as pessoas e os sentimentos. O que queremos com isso? Perguntarei novamente: O que pretendemos com isso?

Não passamos de escolas de samba desfilando na avenida com a esperança de melhores notas, votos e merecedores de atenção. A causa- independente de que causa for - em si, não parece mais importar. Existimos por uma desculpa que damos a nós mesmos de que temos que fazer algo por outro algo, quando na verdade só o estamos fazendo por nós e nossas precárias convicções.

Posso não gostar do carnaval como o é aqui no Brasil, mas, de certa forma, ainda que também já tenha perdido o seu verdadeiro significado, creio que seja a forma mais pura e despida de falsas pretensões. Talvez, o mais próximos que chegaremos a fazer, realmente, pela livre expressão.

Não faz crescer a nada útil ao amadurecimento organizacional e deveres de uma sociedade, mas também não os destrói, como fazemos nós, as vezes, cedendo falsos votos ao apoio de algo melhor. Banalizamos o ato de amar, de sentir, de lutar, de protestar, de criar. E o carnaval assim o faz, mas infinitamente de forma menos venenosa. Banaliza o que já foi banalizado. É pura diversão para quem gosta. Livre de preocupações, ideologias. Onde não existe um passado nem um futuro. Somente o presente. Sem falsas pretensões. É o que é.

Assim, creio que descubro no final deste post que não gosto do carnaval- o carnaval que conhecemos hoje - por ele retratar o que há verdadeiramente em nós. Nos fantasiamos para mostrar o que realmente somos e nos desfantasiamos para voltarmos a nos fantasiar e sermos aquilo que pensamos ser: seres polidos, íntegros e de ideologias de prosperidade e amadurecimento.

O carnaval é uma das épocas mais tristes do ano, pois me leva a crer que não chegaremos muito longe, justamente pela falta de adaptação à verdadeira realidade que nos cerca e à verdadeira necessidade de modificação que nos é solicitada.

Temos um sistema interligado que se chama internet e não o usamos nem na medida de 0,1% para algo verdadeiramente glorioso. Vivemos em um universo digital nos escondendo de nossas obrigações. Um sistema de unificação ineficaz devido à desunificação dos seres que se compartilham, por ser mais importante a imposição de seus fragmentos aos outros do que a aglutinação da essência.

Como disse: não passamos de um Carnaval. Ou pior, um carnaval venenoso e com conseqüências.



sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Conselhos de Rilke - V




"Ame a sua solidão e suporte a dor que ela lhe causa com belos lamentos. Pois os que são próximos de ti estão distantes [...]. Se o próximo está longe, então o que é distante vaga entre as estrelas, na imensidão."

Rilke
Worpswede, 16 de julho de 1903
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Nem sempre aqueles que estão próximos conseguem estar realmente próximos e envolvidos com nossos anseios, nossas emoções e espírito. Li certa vez algo do gênero:

"...os caminhos bonitos quando feitos todos os dias deixam de ser tão belos. Os caminhos feios quando feitos todos os dias deixam te ter este efeito. A beleza está mesmo no caminhar..."

Talvez, os que próximos estão, estejam muito mais envolvidos com nossas matérias do que com nossas mentes. Difícil olhar para dentro de alguém quando o vê  todos os dias por fora. As pessoas se acostumam com a presença de outras pessoas mas esquecem delas como as viram pela primeira vez. Por outro lado, as pessoas que estão distantes de nós são capazes de se lembrarem de nosso espírito, ainda que para isso utilizem de suas mais sutis imaginações. Há idealização, e os sentires são mais intensos. A saudade é um fator determinante para se saber quem está realmente próximo e quem está ausente.

Devemos amar nossa solidão pois é nela que reside nosso ser. Quem não aprende a amar o próprio ser, não aprenderá a verdadeiramente amar aos próximos. A solidão não é algo ruim, pois, a pesar de sermos todos sozinhos, jamais estaremos a sós. Não será o tempo que lhe mostrará isso, mas seus olhos e sua vontade de enxergar.

Como já disse em outro momento, o tempo é uma invenção. Só existe para os que perecem aos seus pés. Assim também o é a distância. Existe apenas para aqueles que a enxergam em números.

"Se o próximo está longe, então o que é distante vaga entre as estrelas, na imensidão"

Essa, sem dúvidas, é uma frase que descreve Deus como o universo e a vida. O provável motivo de estarmos sempre mais próximos dele do que de qualquer outra coisa.

Aprender a amar a solidão é o primeiro passo para se aprender a realmente amar a comunhão e estar verdadeiramente próximo de alguém, independente da distância.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Conselhos de Rilke - IV



"Não investigue agora as respotas que não lhe podem ser dadas, porquê não poderia vivê-las. [...] Viva agora as perguntas. Talvez passe, gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas."

Rilke
Worpswede, 16 de julho de 1903
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Essa frase remete um pouco ao conselho anterior. O de saber esperar pelo amadurecimento de uma idéia, algo ou alguém. Entretanto, acho que meu comentário não irá mais longe do que um breve desabafo. Quando pensamos que estamos vendo o caminho, percebemos que ainda não vimos nada de diferente de outrora. Trata-se de ti (eu e vocês), cada um, sentados sobre o mesmo cordão da mesma calçada de uma rua qualquer que como qualquer outra leva a qualquer lugar.

Essa frase não me caberia menos perfeitamente que uma luva. É como diz o ditado popular, "Se tu tens um problema e o mesmo tem solução, não se preocupe pois há uma solução. Agora, se tu tens um problema com a solução, preocupe-se menos ainda pois há solução". E é assim, amigos. "Se correr, o bicho pega. Se ficar o bicho come."

Este blog já me salvou muitas vezes e continua a me salvar sempre que preciso. Independente de quem o leia ou o visite. Aqui encontro em momentos de reflexão meus demônios, virtudes, dúvidas e soluções.

Quem sabe um dia eu ganhe alta!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Conselhos de Rilke - III


"'Tudo' está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação."
Rilke
Viareggio (Itália), 23 de abril de 1903
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Não há muito que possa ser dito ou acrescentado. Rilke escreve frases de extrema simplicidade mas de reflexões intensas. Saber quando nossa semente germinou é algo que somente nós mesmos podemos saber. Não há tempo previsto nem fórmulas para se apressar a germinação. Somos todos terras mais ou menos férteis a cada estação. Mais ou menos férteis a cada temperatura e tempo.

Pode-se plantar várias sementes, mas cada uma germinará conforme for de sua própria natureza e da natureza da terra que as abrigam. Toda criação vem através de nós, mas não necessariamente de nós. Sementes são atiradas em nossos terrenos pelas mais variadas circunstâncias. O vento, os animais, as plantas ao redor, etc.

Sua arte pode vir do pensamento de um amigo, que germina na sua cabeça e ganha vida própria, vida essa que é nutrida por nós. Sobrevive as que realmente foram corretamente alimentadas e fortificadas. As que se mantiveram longe das pragas do pessimismo e da inveja, do tempero destemperado do veneno alheio.

Devemos lembrar que o exterior poderá interferir em nossa criação, mas somente nós que poderemos permitir ou não tais interferências. No final, a decisão, por mais suscetíveis que possamos ser, está unicamente em nossas mãos.

Ode à Rilke, que compreendeu como poucos que a pressa dos de sua época, hoje já lenta aos nossos olhos, não os levaram a nenhum grande entendimento - Me pergunto o que sobrará para a nossa pressa de hoje, ainda mais apressada que a de ontem.

Se a perfeição é inatingível, ainda mais o é com a pressa. Para tudo há um tempo na natureza, de acordo com a natureza de cada semente. Por que, então, não haveria de existir um tempo para cada um de nós de acordo com a natureza de cada indivíduo? Se posso deixar algumas palavras finais as deixo assim:

Nasça, cresça, amadureça, e agradeça à vida pela sua natureza, independente de seu tamanho, de sua idade, de suas conquistas. És único e por isso inigualável. Não tens a obrigação de ser mais ou igual, nem necessitas ser menos. Celebre sua arte por aquilo que ela é, indizível, por jamais ter sido dita ou  vista antes.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Conselhos de Rilke - II


"Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante"


Rilke
Paris, 17 de fevereiro de 1903
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Pobre daqueles que necessitam de palavras polidas para a construção de um belo poema. Constroem poemas mas não fazem poesia. Constroem poemas, mas não fazem arte. 

Respeito sinceramente os grandes poetas que inovaram na forma, no esqueleto de suas escritas. Fugiram do banal e se destacaram pela diferença, mas, honestamente, não vejo em seus poemas mais ou maior poesia do que nos poemas de uma criança. Se você se prende somente ao diferencial, na busca de construir belas escritas, deverias saber que hoje o diferente não passa do comum. Onde estarão os verdadeiros guerreiros? - Os sinceros de coração.

Tenho certeza que não era esse o caminho sonhado por grandes escritores. Eles já inovaram, destacaram e não há nada mais do que imitação de seus passos nos dias de hoje. Poemas, do tipo tradicionais, hoje em dia, são como as grifes. Enfeitam e escondem ao mesmo tempo o conteúdo.

Escrever, seja lá sobre o que for e como for, não é uma atividades exclusiva de intelectuais. É uma expressão da alma. Prefiro andar nú e descalço, mostrando a verdadeira arte. Aparentemente simples, mas de criação complexa.

Quem muito quer dar ao mundo, é porque tem uma necessidade compulsiva de receber.

Insignificante e ignorante é aquele que não vê a profundidade de uma simples palavra como o Amor. Este, sem dúvidas, está cego pela banalização do termo clichê.



terça-feira, 26 de outubro de 2010

Conselhos de Rilke - I


Apresentação

Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta nascido em Praga, é um dos autores de língua alemã mais conhecidos no Brasil. Particularmente não conheço tanto de Rilke quanto gostaria, mas conheço o suficiente de suas obras para dizer que tenho afinidade com seus pensamentos e admiro sua forma de escrever poemas. O que proponho fazer aqui nada mais é do que uma pequena reflexão sobre frases mais interessantes escritas por ele no livro Rilke - Cartas a um jovem poeta, publicado por Franz Kappus em 1929 - três anos após a morte de Rilke.

O livro em questão é uma compilação das dez cartas mais importantes que Rainer trocou com seu interlocutor, Franz Kappus. A partir de hoje, escreverei até o final do mês de novembro trechos dessas cartas, que servem de grande reflexão. Não poderei deixar de comentar os pensamentos de Rilke, assim como cada uma de suas palavras tão bem colocadas. Quem quiser ir a fundo, recomendo o livro que é de fácil leitura, está disponível pela L&PM Pocket e possui 91 páginas.

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"Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de aprender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, [...] e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa"

Rilke
Paris, 17 de fevereiro de 1903

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Sou formado em Cinema, e como toda pessoa que assim o é, imagino que não se possa ser atribuído o título de empregado ou desempregado. Há quem diga que quem trabalha no ramo, trabalha com arte, ou trabalha com entretenimento de massas. Se o cinema é ou não uma arte, acredito eu, não é o importante da questão. Talvez, o mais importante é que a arte só é verdadeiramente arte quando surge de uma necessidade de expressão sincera. Não sei se alguém que faz filmes como American Pie os faz por uma necessidade de expressão - e também não deveríamos julgar se essa necessidade é merecedora de expressão ou não. Necessidades são necessidades, conscientes ou não, e cada um tem as suas. Diretores fazem filmes. Ponto. Pessoas fazem arte. Ponto. As vezes filmes são arte, as vezes não.

Pego o exemplo do cinema porque me é o mais familiar. O que gostaria de dizer, assim como Rilke, é que a arte é subjetiva e por esse motivo, pessoal. Você pode julgar o fruto com referência no seu gosto, mas não pode condenar a árvore. A arte não tem o dever de causa alguma a não ser a de ser sincera consigo e com aquele que a criou, e sinceridade, meus amigos, é algo a se combinar. Combina com a possibilidade de compreensão que cada indivíduo possui. É como um código que só pode ser entendido por aqueles que possuem seu dicionário. A diferença da arte para os códigos, a grosso modo, é que, códigos são para serem compreendidos e a arte é um emaranhado de códigos resultantes da expressão de alguém, e, nem sempre, podem ser ou significam algo. Arte é um resultado que pode não ser admirado, mas deve ser respeitado acima de tudo. Não foi feita para se concordar ou não. Ter o direito de concordar com algo ou alguém é democracia e não tem nada a ver com críticas à arte de alguém.

Criticas são construtivas no processo evolucional da carreira ou do trabalho de uma pessoa, mas saiba que a verdadeira arte não se interessa por carreira, trabalho ou evolução. Se interessa em simplesmente ser/existir, independente do motivo que a traz à vida.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Cartas a Quem Possa Interessar IV

Em que poço terá eu caído? Terá eu me desviado do caminho? Caminho traçado por jovens que nada sabiam da vida. Uma vida dita de possibilidades infinitas e grandes conquistas.

Que potes de ouros encontraremos a final?
Diga que permanecerei aqui, curioso a vislumbrar tal tesouro.

Uma vida ou duas são poucas para aprender sobre o viver e existir. E, talvez, a primeira lição seja justamente a ausência da tentativa do aprendizado.

Classificando coisas? Que coisas criaremos para a classificação?

Nesses dias em que o vizinho dorme para o trabalhar, eu, como e durmo para o sonhar. E quando meus pensamentos se desvanecem no inútil, lembro-me que não há nada mais inútil do que o rotulamento da utilidade.

Em que poços cairemos sem a reinvenção do viver?

Palpite:

Talvez, nos mesmos poços em que grandes conquistadores naufragaram seus navios. Em uma terra quadrada onde o mar acaba em abismo, o universo gira ao nosso redor; onde somos donos de algo o qual nem mesmo sabemos explicar a procedência.

E certezas? Somente duas. A ignorância vem do homem. A sabedoria, do desconhecido.



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Desconhecido


Já não me importa mais tanto o que virá ou berrar pelo que veio. Talvez com o tempo a gente vá se acostumando a aceitar e apreciar os desafios que a vida nos coloca à frente.

Quando se é criança se tem o sonho de que o futuro será algo distante e eterno. O local onde poderemos nos realizar como pessoas, ou, o lugar onde se terá um final limpo e feliz. A gente cresce e percebe que o futuro não está distante mais do que um dia à nossa frente. E, talvez com o tempo, conforme envelhecemos, talvez não estará a mais do que um segundo. É curto e mais prospectivamente sujo do que limpo.

Os dez anos de vida de uma criança são como a metade de todos os nossos próximos sessenta, setenta anos de vida. Tudo é infinito e de repente o finito se torna palpável às nossas mãos. Vive-se mais os dez primeiros anos de vida (e aparentemente mais longos) do que o restante de nossos dias.

Na adolescencia dos anos 2000, o estilo
glamour de "massa" e o cult de "poucos" (o glamour alternativo) foram as formas predominantes, e alternadas, de se vestir e portar - e que grandes macacos chiques nós fomos, hein? - A fama é algo do início do século XX. O luxo e o dinheiro, coisas da época em que Cristo andava com suas sandálias por aí... Agora, fama, luxo, dinheiro e pensamento politico-ecologico-socialmente correto (plus o glamour cult, é claro) são coisas a mais do que minha capacidade de compreensão pode suportar nos dias de hoje.

Tem gente querendo ser glamurosa "sem" luxo e dinheiro. Tem gente pregando a "nova forma" de ser
cool e estar nos holofotes (ainda que gritem e finjam querer ser total off). E a verdade é que chamam mais atenção rejeitando a "luz" do que a própria luz os faria "cintilar". Esses sim, brilham na escuridão.

Quanta futilidade e "arruinação".

Somos aquelas mesmas crianças que antes brincávamos, e hoje atacam por misérias espirituais. Se superar é a palavra chave, e eu me pergunto, onde foi parar nosso senso (o bom)? Os ideais?

"Queimem os bruxos que ainda acreditem nisso!". Ideologias como paz, amor e união são
so last 70ths. "Ya no hay lengua, ya que se perdió. No hay alma, porque el viento llevó".

Pobres covardes que somos!

Amantes do inútil, descrentes da própria esperança. Crianças mimadas, protegidas pelos pais recalcados que tivemos, por estes terem sido criados por nossos avós "sem-noção".

O que criaremos?

Talvez, aquilo em que, em fé, verdadeiramente acreditemos.
E em que verdadeiramente cremos, afinal?

...Talvez uma boa pergunta para uma resposta sem respostas.


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Cartas a Quem Possa Interessar - II


Esses dias estava lendo no blog de um amigo um texto sobre limitações, essência e sonhos. Será que realmente possuímos limites ao nosso redor? Ou seria nós que nos limitamos ao máximo que nossos olhos podem ver sobre nós mesmos?

Não temos muito mais que vinte ou trinta anos e pensamos conhecer todas nossas capacidades, ou todos nossos limites, mas a verdade é que a cada ano, a cada dia, podemos nos surpreender com habilidades desconhecidas e formas de pensar que talvez tenhamos pensado que jamais chegaríamos a pensar.

A vida me parece um dom. O dom de aprender consigo mesmo e com todo o resto que está ao redor. O porém é que, geralmente, só se pode aprender com as ferramentas que se têm disponíveis em sua época. São raras as pessoas que têm a capacidade de inventarem novas ferramentas. Cada pintor pinta de acordo com sua mão e o pincél que tem disponível. Nem sempre é o ideal, mas tenho certeza que cabe a nós buscarmos o ideal para cada tipo de quadro que quisermos criar.

Pena as pessoas hoje somente terem o dom da destruição de ideais. Da ridicularização dos sentimentos e do culto à matéria.

Que essência e limites criamos para nosso espírito?

É mais fácil crer na matéria física que nos sonhos de um louco. É mais fácil criar quadros com a mesma técnica conhecida que inovar ao inventar uma nova forma de criar.

Nunca vimos as ondas de rádio e isso não quer dizer que não existiam antes mesmo de haver instrumentos para descobrí-las. Quantas outras coisas não vemos e ainda não achamos formas de descobrir? E que, por não vermos, não significa que não existam.

"Uma mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original"- Albert Einstein.

- Vigie seus pensamentos e conhecerás mais de tua essência, liberte-os e conhecerás a ilimitação.



terça-feira, 11 de maio de 2010

Onírico


Talvez nem tão certo...
Ou nem tão errado...

Um destino semi afável que nos envolve,
Nos encobre, ora lama, ora flores.

Dívidas inexistentes de cabeças pequenas.
Velhos sonhos largados para trás...

Velhas crianças que brincavam de carrinhos,
Senhoras que tricotavam e embalavam-se em cadeiras de balanço.

E você se depara com a realidade de que uma vida são muitas vidas vividas.
E muitas delas duram muito pouco tempo para apenas uma.

Então se vão os avós e os amiguinhos da rua...
O cão e o gato...

E por fim se vamos nós, para que fiquem os filhos e netos de um sonho "realidade" que é mais onírico que o próprio onírico um dia conheceu.

Muitas vidas (certas e erradas), bem e mal vividas, em uma vida só. Nosso precioso tempo que com o tempo faz não valer o dinheiro que o compra.

E a ironia letal:

"Hoje, onde se vive mais, é onde morremos todos os dias"


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Codinome Adrian e Adan


Imitando o Yuri: Como fazer? Descrevendo-se livremente, sem apego às regras da mais perfeita escrita. Somos perfeitos no dia-a-dia? Não! Então, não sejamos hipócritas em querermos uma autodescrição perfeita sobre o quanto somos imperfeitos e ainda temos a seguir.

Falar sobre o Rogers ou o Robson é caótico, muito mais para mim do que para vocês. Cresci sendo chamado por Rogers e quando cheguei na escola conheci um tal de Robson - Quem diabos era esse cara?

Robson, o filho modelo, projetado para seguir bons costumes, etiquetas, e tirar notas dez. Rogers, a cria indomável e selvagem, correndo pela rua atirando pedras nas pessoas, dizendo palavrões, e fazendo gestos obscenos.

Até os desessete minha vida particular foi regida pelo Rogers. Na social, pelo mais exemplar, o Robson. Não me perguntem quem controlava quem, ou como os processos ocorriam. Fato é que, em algum momento, depois disso, estes dois rapazes começaram a entrar em conflito, se entrelaçando, misturando suas crenças, seus ideais, seus anseios. O selvagem e o disciplinado convivendo diariamente sob o mesmo teto, o mesmo corpo. Um travando o outro e sabotando, até que as definições fossem sumindo pouco a pouco. E eu, simplesmente, me perdendo de mim.

Como viver sem definições? Como organizar a mente quando sua mente enxerga as coisas sempre por dois lados. Como escolher o melhor caminho quando sua razão entende que "o melhor caminho" é o ápice da subjetividade?

Esse sou eu. A inconstância. A maldade convivendo com a ingenuidade. A ingenuidade que pune a maldade com tormentos moralistas, e a maldade, que usa da ingenuidade para promover conquistas. Quanta monstruosidade dentro de um ser só. E quanta prova de humanidade, também.

A maldade é aquela que se esconde em minhas entranhas. Já a bondade não! Ela é aquela que vem aqui dedurar os podres sem piedade. Sim. Por que ser bom, as vezes, é ser impiedoso também. O erro não está nos sentimentos bons ou ruins em demasia, mas sim, no nosso senso de justiça vigente. Sim, o Robson é muito justo e forte suficiente para entregar seu irmão se for preciso. Pelo menos, é assim que tem sido até hoje.

Já, alguns, dizem por aí, que o Rogers é traiçoeiro, troca de amigos como troca de roupa. Pois daí me defendo dizendo assim: quem disser, que prove. Pois se assim fosse, não teria em meus albuns fotográficos atuais os poucos e verdadeiros amigos ao meu lado. Os mesmos, alguns, que fiz quando ainda tinha apenas seis anos de idade. "Oh! Mas e os que desapareceram ao longo do caminho?": Bom, eles desapareceram!... Mas não, realmente não me lembro de tê-los mandado embora.

Decepção? Comigo? Quem nunca se decepcionou ou decepcionou alguém que atire o primeiro bloco de concreto. Me decepcionei com muitas pessoas e decepcionei muitas, provavelmente. Mas, nunca deixei de tentar compreender os que a mim me decepcionaram, muito menos deixei de pedir as mais sinceras desculpas por ter decepcionado alguém.

Quem é o Rogers? Quem é o Robson? Não sei mais definí-los pois tornaram-se um só. Sei que acreditam no amor, na beleza. Sei que são falhos. Que não são adeptos às doutrinas alheias, mas sim à todas aquelas que lhes forem convenientes. São livres de rédeas, senão, às próprias que condicionam um ao outro.

Um deles é romântico, vive em um mundo cor-de-rosa, de fantasias. Um deles é o mais indiferente dos seres, capaz de não sentir nem uma pitada de compaixão. Um é prático pois quer ser eficiente. O outro é melodramático, mimado, egoísta. Um chato. Mas, provavelmente, o chato que irá enxugar suas lágrimas em todos os momentos e , a qualquer hora que for preciso - pois é de grande sensibilidade.

A verdade é que tanto um quanto o outro gostam de atenção. Se ela não existe, um vira as costas e segue em frente, procurando quem lhe dê. O outro, chora e esperneia esperando que seja visto e ouvido. Um é maduro, o outro não passa de uma criança.

Maturidade? Pra minha idade? Sim, muita, e digo com orgulho. E onde fica a modéstia? Bom... Na franqueza de dizer que sou um dos caras com a pior autoestima que existe. Mas, também, na franqueza, de falar que compreendo que não existem motivos quaisquer para tal sentimento.

Sou assim. Um observador nato, que entende o contemporâneo como poucos, mas não entende como as pessoas podem ser tão ignorantes de não compreendê-lo. Sou o cara típido autista por opção, que passa mais da metade do tempo fazendo conclusões analíticas sobre tudo e todos, vivendo submerso nas profundezas do pensar.

Sou aquele que vê todas as coisas, e finge não ver através da máscara da ingenuidade. Sou aquele que não leva a sério suas descobertas. Percebe o melhor e o pior de cada um, inclusive de si mesmo. Enxerga e sabe onde estão os caminhos para as resoluções. Porém, incapaz de conseguir seguí-los com maestria.

E seja lá com qual dos dois vocês estejam lidando, uma coisa é certa: ambos são dignos de confiança, pois o que mais prezam são os tratados e a fidelidade. São fiéis até a morte, exceto, em casos de infidelidade alheia.

Sobre jogos? Péssimos jogadores. A melhor estratégia que têm é manterem-se afastados de jogos. Nem que para isso, tenham que fingir que estão jogando. Contráditório? Pra mim (ou nós), nem um pouco.

Rapidinhas:

O que busca: Harmonia e equilíbrio.

Crença: A mais abrangente possível, livre de preceitos e pré-conceitos. A minha própria crença. A realidade particular (cada um tem a sua realidade, não existe uma única).

O que ama: As pessoas que estão comigo pro que der e vier, a vida, a energia que nos envolve.

O que odeia: A falta de percepção das pessoas sobre as consequências segundo seus próprios atos.

Se tivesse que dizer suas últimas palavras, o que diria: A concepção de vida que conhecemos é uma grande ilusão. Não se matem por tão pouco quando se vale muito mais do que se imagina, apesar de, muito menos do que esperam os egocêntricos. Viver é compartilhar o que se tem, de bom e de ruim. E sim! Vale muito a pena. É a melhor coisa que me recordo ter experimentado e estar experimentando desde que imagino existir.

Sou caótico. Sou prolixo. Sou piegas. Sou assim, igual a tantos de vocês...



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Que Vai no Recheio?


É realmente interessante nossa vida. O decorrer dela. As defesas ideológicas que fazemos. Os sentidos e rumos que tomamos. Ou, até mesmo, aqueles que não optamos, mas mesmo assim, de enxeridos, nos apareceram.

Nascemos nus. Completamente nus! Mal temos cabelo, mal temos corpo, mal temos cor. Nascemos com nada e, aos poucos, vamos ganhando o mundo. Desde nossos primeiros segundos de chegada nós ganhamos coisas. Ganhamos nossos primeiros metros cúbicos de oxigênio, inalados por nossas narinas, que vão circular por nossos pulmões, e serão, no segundo seguinte, perdidos através de nossa expiração. Ganhamos e, a partir desse momento, já começamos a perder também - o ar, e os segundos.

Mas, a verdade é que iremos ganhar muito - muito mesmo - nos próximos anos de nossa existência, depois de nascermos. Ganharemos muito mais do que iremos perder, na verdade. Nasceremos e ganharemos pais, avós, tios... Alguns até mesmo irmãos. Ganharemos nossas primeiras roupas. Aquelas que encobrirão futuramente nossas vergonhas - o nosso corpo, que também ganhamos ao nascer.

E o mais interessante é que, quando morrermos, tudo aquilo que ganhamos nos será tirado. Alguns irão perder ao longo do percurso. Outros, terão a sorte ou o azar - não sei - de perderem tudo só no último instante. Nascemos nus. Partiremos nus... Ainda que de terno e gravata - e não me perguntem porque esta é a melhor forma de partir.

Alguns defendem que durante todo esse caminho - que para os novos parece ser gigantesco, mas para os mais velhos, parecerá bem mais curto do que pensavam ser - encontraremos a felicidade somente dentro de nós. Já, porém, outros, defenderão que a felicidade poderá ser encontrada fora de nós, junto aos outros. Uns buscarão por completude. Outros por momentos, uma vida confortável, ou afeto apenas... E não importa quais crenças teremos, ou o que iremos nos propor a buscar - se será válido ou não - se nossos valores realmente foram os mais corretos para nossa época. Não importa. Ainda assim, chegaremos sozinhos e partiremos também assim.

Quando meu avô morreu, dias antes de partir, ele pediu perdão à minha mãe. E ela não entendeu, mas de qualquer forma, ela disse que - seja lá pelo o quê ele buscava o perdão - ele estava perdoado. Então, ele falou para ela só não esquecer de uma coisa. E a coisa era:

- A vida é uma ilusão, uma grande ilusão!

Penso que entendo o que ele quis dizer. Não que a vida fosse ruim, como um sonho que não se realizaria nem no "final". Mas sim, que, todas nossas crenças e hábitos não passam de uma alucinação coletiva de nossas mentes. E a prova é que as coisas são reais para aqueles que acreditam no que querem que seja real. Mas a realidade básica é essa: nascemos nus e morreremos assim. Todo o resto, entre o início e o final, o chamado "recheio", são apenas boas e más lembranças do que vivemos e cultivamos enquanto nos foi dada a oportunidade.

(O que andas a cultivar para teu recheio?)

Algumas pessoas, ao se tocarem disso, viverão intenssamente seus momentos, e acho que isso não será o suficiente para preencher o meio. Pressa e rapidez em querer viver só acelerará mais a vida. Outras pessoas que se derem conta do que realmente "conta" - e o que conta de verdade é subjetivo - se apressarão em exercer o desapego. Abrindo mão de bens e, inclusive, de pessoas. Afinal, viver sozinho talvez seja o melhor caminho para aquele que nasceu assim e sabe que morrerá assim. Afinal, tudo que nos dão, um dia, mais cedo ou mais tarde, nos tiram. As coisas perecem e as pessoas partem. Certo?... Errado! - pelo menos ao meu modo de ver.

Nascemos sozinhos, receberemos do mundo uma infinidade de coisas, momentos e pessoas. E sim, "perderemos" tudo pouco a pouco - e alguns até mesmo as lembranças -. Mas, não, de forma alguma, isso significa que devamos nos adiantar e vivermos sem nada, na solidão. Ganhamos o mundo. Ganhamos as pessoas e os lugares. Tudo é nosso e está aqui para usufruirmos com respeito. Se cuidarmos, ficará conosco até o final da jornada. Como sempre digo, a vida é o presente que você ganha. É como receber o prêmio de seis munitos no paraíso. Você pode estar sentado observando os outros, pode estar destruindo o seu céu, estar se divertindo, ou, até mesmo, temendo-o. Mas pode estar compartilhando o prêmio se quiser, interagindo com ele e os outros premiados.

Exercer o equilíbrio é fundamental, embora, nao sejamos obrigados a saber exercê-lo de cara. Enquanto alguns têm que aprender a serem mais sozinhos e menos dependentes, outros, tem que aprender a interagir com o grupo e confiar na capacidade alheia. E sim, teremos que devolver tudo no final de nosso intervalo de tempo. Mas não nos apressemos, nem penssemos nisso. Devolver tudo de bom que tenhamos recebido será apenas nossa última provação. Aquela que nos prova que não somos egoístas, mas, altruístas, o suficiente, para deixarmos mais premiados usufruirem do paraíso. É tudo um grande jogo de equipe. Percebamos isso ou estaremos não só nos prejudicando, mas também, aos outros jogadores.

"Não me firas porque te feres" - Pablo Neruda

E aqueles que esperam encontrar a paz de espírito e tranquilidade na morte, eu deixo um recado: É muito fácil e cômodo querer ir para um lugar bonito e tranquilo, que nos preencha e nos dê o descanço "merecido", sem que tenhamos que nos esforçar para construirmos o mesmo. É reconfortante mudar-se e, ao entrar na casa nova, encontrá-la pronta para nós sem que tenhamos desempacotado um só pacote. Mas, já deveríamos ter percebido que não obtemos nada duradouro se não com nosso próprio esforço.

Nascemos nus. Mas tudo o que realmente ganhamos foram as ferramentas, pois o demais, se parar para pensar, verás que - diretamente, indiretamente, conscientemente ou inconscientemente - conquistastes com tuas próprias mãos através de tua própria vontade.

Olhe bem a semente do que plantas, antes de surpreender-te com o fruto que colherás.

O mais gostoso sempre é o recheio!


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Salve-se!


Você tem sido um cara humano e íntegro?
Já se perguntou o que fez de bom hoje?
Pergunte-se então, óh ser altruísta!

O pessimismo aí fora é tão grande que tem gente se entregando de corpo e alma a uma possível salvação: A modificação interior.

O que, de certa forma, chamo de: O Adestramento interior.

Com tantas possibilidades catastróficas rondando nosso planeta, pessoas estão cada vez mais se entregando a uma oferta tentadora de salvação. E não, não estou falando apenas sobre religiões cristãs. Me refiro a qualquer tipo de crença/ideologia rendencionista ou evolutiva. Algo do tipo "Renda-se a cristo e a fé cristã, e serás salvo!" ou "Evolua, livre-se dos sentimentos inferiores e estarás livre da roda das encarnações."

Meu objetivo único com esse texto aqui é fazer uma constatação e indagar. Não é, de forma alguma, atacar a uma religião específica - ainda que a Espírita insista em denominar-se uma ciência e não uma religião (não confundir Espiritualismo e Espiritismo) - , mas, para constar, se, na compreensão alheia, eu estiver atacando... Não era esse o objetivo específico. Perdoem-me!

O fato é: somos seres com vontades e, reconhecendo essas vontades como vindas do espírito, estas são indiferentes à nossa moral ética comum. Todos concordamos que o sentimento de querer ferir alguém é um sentimento ruim. Mas, sabê-lo, está longe de ser igual a tê-lo escurraçado de nossa essência. E é justamente o que parece querer as mais altruístas das ideologias que estão por aí afora (sim, porque, na realidade, aqui, neste planeta, tudo não passa de ideologias humanas).

Até aí, tudo ok! O que não se encontra ok, é o fato de que na maioria dos casos o que há é uma grande ilusão de mudança. É uma verdadeira frenesi. Pessoas lutando contra seus instintos mais obscuros, culpando-se por sentirem o que sentem, e, de alguma forma, autoflagelando-se.

Modificação? Ou puro controle temporário das emoções, sentimentos e vontades?

Modificar-se é alterar-se. Não repreender-se, esconder-se!


Até que ponto os sentimentos ditos ruins são realmente prejudiciais a nós e aos outros ao nosso redor? Será que sentir raiva realmente é algo que deva ser exterminado de nós? Acho que não.

Raiva não é um sentimento ruim, é apenas mais um dos sentimentos humanos. E sua intensidade depende de como foi construída a psique de cada indivíduo. Reprimí-lo é como reprimir a uma autodefesa natural do ser humano. Não é a raiva que é prejudicial, mas sim, seu surgimento constante e nosso próprio senso de injustiça que nos faz sentí-la, ora por motivos relevantes, ora por motivos fúteis e mesquinhos.

Nosso corpo está recheado de sentimentos e, o ideal, é que eles se contrapesem, mantendo o equilíbrio do ser. Afinal, amor em excesso é tão prejudicial como o sentimento de raiva constante. Torna-se uma obssessão. O ideal é que possamos nos manter equilibrados naturalmente, sem o uso de repreensões ideológicas de outrens.

Para simplificar meu objetivo de estar escrevendo isso, gostaria de dizer que a maioria dos seres altruístas que se veem por aí, são seres que, lá no fundo, não se modificaram, mas, se esconderam de si mesmos através de um autoadestramento. Se consideram bondosos, humanos, evoluídos, corretos e lutam desesperadamente contra todo e qualquer sentimento que considerem negativo, que brote dentro de si mesmos. De uma forma geral, negam a natureza humana e seus instintos naturais, acreditando que mudaram, mas, na verdade, estão apenas adormecidos.

Modificar-se de verdade? Não sei se é possível, já que a maioria dos sentimentos recorrentes em nosso ser advém, parte de nossa genética, parte de nossa psique construída ao longo da infância - e para aqueles que acreditam: parte de nosso espírito milenar - Mas, negar, até mesmo a mais vergonhosa das vontades, é estar negando-se, ignorando o problema, e, vivenciando uma grande mentira.

Liberte-se. Tire a máscara.
Mostre-se!

E nós, daí, verdadeiramente, chegaremos em algum lugar!



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