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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Pensamentos no Ônibus I


Provavelmente sou o cara que mais possui projetos inacabados. Não sei até que ponto eles perdem o sentido para mim no meio do caminho, não sei até que ponto sou multifocal em demasia, ou acomodado mais que o aceitável... Até que ponto fico esperando demais certas idéias amadurecerem para virem à luz do universo concreto?

Fato é: estou cada dia mais cansado de mim, de meus entraves. Fica mais obvio e vergonhoso tomar conciência que sou Eu "A Pedra no Caminho". Não ando passando de um Filhinho da Mamãe. Talvez um guri de apartamento - se morasse em um, provavelmente seria a denominação adequada.

Mas devo reconhecer, esse ano consegui consertar algumas bagunças na minha vida. Voltei a trabalhar na minha área, a estudar na minha área... O que realmente anda me matando é que não sei realmente o que significa essa história de "minha área" -  cara! Que porra é essa?

É tudo tão amplo. Sou tão empolgado com tudo. Torna-se difícil submeter-me à escolha de algo em específico - céus! Preciso me focar.

Disse uma vez Jobs que se você sabe o que realmente quer da vida, não há motivos pra não ir atrás disso com todo o coração. Ele era um gênio e um crápula. Talvez falta-me ser gênio e crápula. Falta-me a maldita loucura. Sobra-me a desgraçada ética e exagerada tolerância. Sou alguém malditamente correto que infelizmente acreditou na moral ocidental cristã. Mas o pior é: falta-me saber o que realmente quero ser quando crescer - Fuck!

Preciso descobrir e começar logo a viver, antes que algum geek qualquer insira um botão em mim - só para me desligar.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

"Perdi Meu Astro do Rock"


No início dessa semana boa parte do mundo se deparou com a figura de Steve Jobs pela primeira vez, através da notícia de sua morte, e muitos provavelmente nem sequer sabiam quem era, ou apenas haviam ouvido falar de seu nome algumas vezes. Ontem à noite, 06 de outubro de 2011, foi ao ar no Jornal Nacional um bloco inteiro falando sobre quem foi esse cara e o que ele fez. Confesso que me surpreendi pela ênfase dada pela Globo ao seu nome - não que ele não fosse merecedor, mas pelo fato de o significado de sua morte estar em uma realidade distante da maioria de nós brasileiros.

Enquanto muitos que conheciam o seu trabalho e a sua empresa tiveram e tem a insistente idéia de classificá-lo como um elitista e empresário de uma empresa que como qualquer outra no mundo tem o objetivo de ganhar dinheiro através de seus produtos caros, eu o via de uma forma diferente: O homem de grandes idéias, que possibilitou não só grandes mudanças na forma como nos comunicamos ou consumimos informação, mas o homem que possibilitou a milhões de pessoa ao redor do mundo o ato de pensar diferente e mudar a realidade estabelecida através do status quo. Ele foi a prova viva disso - Que é possível sim enxergar formas diferentes de se estruturar o mundo, não apenas comunicacionalmente, mas em todos os sentidos da existência.

Com seu trabalho, Steve Jobs mostrou que embora o ser humano se adapte às formas prontas de pensar, essas formas podem ser rompidas, desafiando as pessoas a pensarem se o que realmente têm feito é o seu melhor e o melhor para o mundo. Enquanto a indústria tecnológica se acomodava a repetir tecnologias com aprimoramentos medíocres, Steve impulsionava o mercado de forma inventiva e desafiadora. Gerando e dando ao seu público uma possibilidade real de escolha de pensamento.

E eu poderia ficar aqui contando muitas histórias sobre como Steve Jobs enxergava as coisas e as fazia acontecer, ou citando suas frases de efeito que do clichê empreendedor passavam longe - afinal, quando ele dizia que algo seria revolucionário, não estava blefando ou fazendo campanha de marketing, mas apenas falando a verdade. - entretanto, gostaria de relatar minha experiência como usuário de suas idéias e o que elas provocaram em mim.

Quando tive meu primeiro contato com computadores Mac me perguntei: por que todos os computadores não são assim? -  Simples de usar, intuitivos, integrados, elegantes, funcionais. -  Foi então que percebi que aquele produto, elitista e caro como todos dizem, despertava em mim a consciência de que tudo ao nosso redor e inclusive nossos comportamentos poderiam ser de maneiras diferentes. - Você não precisa seguir uma linha de pensamento imposta se souber pensar na essência e na necessidade de se fazer coisas, se ter algo ou ser alguém. - O preço que paguei por meu primeiro Macintosh não foi apenas pela sua performance ou elegância. O preço pago fora por um ideal.

Sinto-me hoje um ser mais crítico em relação ao que existe ao meu redor. Procuro um caminho mais simples - não necessariamente mais fácil -. Meus valores sobre consumo mudaram, sou uma pessoa que consegue criar seus próprios conceitos sobre a vida sem ter medo de estar saindo da zona de conforto. Creio que a opinião alheia me interessa menos que a minha própria - porque cada um tem que encontrar a sua razão de ser e a razão de nenhum deve sufocar a de outrem. - Hoje sou ciente de que a maioria segue um modelo predefinido de vida e lógica.

Os ideais de Jobs não foram passados a sua empresa e produtos por questões meramente capitalistas. Jobs nunca deu mais valor ao dinheiro do que a seus ideais. Se sua empresa se tornou o que é hoje, é porque Steve aplicava seu modo de viver a vida em tudo o que tocava, tinha ciência que o que revolucionava não eram os produtos, mas seu modus vivendi. - Jobs era Budista, vegetariano e possuía a maior arma de todas para o sucesso, saber o que queria fazer e os caminhos para fazer.

E esse é o ensinamento de maior valor que me fora passado, não expresso em pensamento ou letras, mas posto em prática e concretizado. Se queremos ser alguém que fará a diferença, devemos respeitar a nossa essência, assumí-la e colocá-la em prática. E para isso é necessário a fé de um Steve Jobs, e a coragem de um Steve Jobs.  - Acreditar em si e no caminho que se quer construir é quase impossível quando o mundo inteiro lhe aponta outro já pronto e estabelecido, mas é possível e a prova foi dada.

"Obrigado por me fazer diferente, por me libertar, por me mostrar uma nova postura para se viver a vida e me relacionar com ela. Obrigado por ter sido um idealizador e modificar a história."


Por Rogers

Para Jobs,
onde quer que esteja.



quinta-feira, 30 de junho de 2011

MadBlush - Make Up


O vídeo mostra-se um tanto pós apocalíptico, principalmente nas tomadas externas, paisagens de aço e concreto destruído, um cenário decadente sendo ofuscado pela maquiagem de um personagem espacial que invade nossas casas usando de todas as suas armas para manipular as mentes e criar um exército de olhos pintados e lábios borrados por batom.

Uma nova humanidade, com tantos rostos quanto desejarem, com tantas máscaras quanto quiserem, em nome do que é belo, em nome do que é arte. Quase como uma reencarnação dos maravilhosos tempos de Glam Rock e seus personagens transgressores, da moral e bons costumes, é que MadBlush nos é apresentado no vídeo de "Make Up".

E assim, como em "I Wanna Be Real", o visual anda de mão dadas com a parte sonora, a letra fica muito bem representada por cenários caóticos e um trabalho de montagem muito bom, criando toda uma aura de futurismo robótico e artificial que valorizam a obra.

Destaco também, e principalmente, os bailarinos com suas coreografias que lembram um pouco a dos franceses do Daft Punk e o trabalho impecável de maquiagem feito pela produção. A obra funciona como uma espécie de continuação de "I Wanna...". Em "Make Up", MadBlush passa da afirmação disfarçada de desejo para a dominação total, toma de assalto seu espaço e transforma o mundo com sua "maleta carregada de armas". Firmando-se como um senhor do glamour do submundo, invertendo a ordem entre mainstream e underground, mais do que invertendo, mesclando o highlight com o dark. A imagem de um futuro oxidado belamente coberto por cores. Um tempo tão presente quanto qualquer outro, o poder da beleza sobre a destruição e da arte como auto-flagelo.

Com certeza uma das obras que colocam a maquiagem em seu devido lugar, uma forma de expressão eterna e valorosa que se perpetuará de geração em geração graças à artistas e profissionais como MadBlush e os envolvidos no projeto do vídeo.



quarta-feira, 8 de junho de 2011

Conceituando Ideologia Através do Cinema e Suas Funções Ideológicas



Ideologia. Mas afinal, o que é? Talvez cada um tenha uma idéia mais ou menos clara sobre o que possa definir essa palavra. Para Raymond Williams o termo pode ser compreendido de três formas. Pensa ele que ideologia é primeiramente um sistema de crenças características de uma determinada classe. Quem sabe, não seria também, um sistema de crenças ilusórias? Ou simplesmente, de acordo com Williams, um processo geral de sentidos e idéias.

Existe ainda uma tal de ideologia burguesa (para o Marxismo). Talvez, apenas uma forma de explicar como as relações sociais são reproduzidas pelas pessoas, de maneira que, não envolvem a força ou a coerção. Porém, para Louis Althusser - um filósofo francês, marxista, afiliado ao partido comunista da França - e seus amigos (Lenin e Gramsci), a ideologia burguesa era aquela produzida pela sociedade de classes. Sendo sempre, por intermédio de uma classe dominante, o fornecimento de uma moldura conceitual geral para seus membros. Assim, se favorecia os interesses econômicos e políticos dessa mesma classe.

Althusser, mais tarde, chegou a fazer uma releitura baseada numa estrutura Marxista sobre o que viria a ser ideologia. Na sua concepção, era isso, um sistema de representação da relação imaginária dos indivíduos com as reais condições de sua existência. Ou seja, uma parte orgânica do todo social, algo secretado pelas sociedades humanas, assim como a atmosfera que é indispensável às suas vidas. A novidade da abordagem de Althusser, não era compreender a ideologia como uma forma de falsa consciência decorrida de perspectivas parciais, ou distorcidas por determinada classe, mas sim, entender ela, como um traço objetivo da ordem social capaz de estruturar a própria experiência.

Ainda em seguida, Louis Althusser vai dividir, baseando-se em Gramsci, a superestrutura dos aparelhos ideológicos em duas partes. A primeira (o aparelho repressivo de estado) incluía o governo, o exército os tribunais e as prisões. O segundo (o aparelho ideológico de estado) incluía a igreja, a escola, a família, os partidos políticos, o cinema, a televisão e outras instituições culturais. Sendo as primeiras, instituições repressoras e já as segundas, formadoras de valores morais.

Com relação à liberdade, Althusser o filósofo francês, acreditava que os “nascidos livres” eram na realidade, sujeitos culturalmente produzidos. Segundo ele o chamado “eu livre” era, e é até hoje, uma construção imaginária, cujas mudanças de estado de espírito e impulsos, ocultam, digamos assim, o peso silencioso da dominação social, pois, a liberdade é imaginária. Somos seres formados pelo meio e esse meio, formado por ideologias de classes dominantes. Sendo assim, o ser livre, ou que pensa ser, só se tornaria de fato um ser livre, quando alcançasse o posicionamento de classe dominante. A mesma classe que “decide” a ideologia dos demais.

Mas então, o que devemos concluir de ideologia? Seria ela uma invenção, uma ilusão? Ou como disse Althusser, um sistema de representação do imaginário dos indivíduos com as reais condições de sua existência? De fato, poderíamos dizer que um pouco de cada coisa. Não existe o certo ou o errado, correto? Mas, será que isso de não existir o certo ou o errado não é uma ideologia do autor deste texto? Minha ideologia diz que não existe o certo ou o errado e isso é baseado no que eu acredito, e , o que eu acredito está baseado sobre as minhas reais condições de existência. Poderíamos nós darmos nossa opinião afirmando o que de fato poderia ser ideologia, mas isso seria uma forma de pensar particular nossa. Contudo, podemos então, definir ideologia como um ato de pensar e crer, vinculado à nossas particularidades que estão, ou não, inconscientemente ligadas às condições reais em que vivemos.

Em suma, podemos defender a tese de que, tudo a nossa volta está vinculado a ideologias de alguém ou alguns. A linguagem do teatro, a política, o sistema de comunicação e inclusive o cinema, o que nos importa mais, obviamente. Afinal o tal dispositivo cinematográfico existe porque cineastas diversos foram incrementando o ato de filmar de acordo com o “é assim que se faz”. O que seria a ideologia dos cineastas em geral, que nas suas concepções e suas visões ideológicas diversificadas, definiram, pouco a pouco, com o passar de décadas, o jeito “certo” de filmar. Se estabelecendo, assim, as convenções narrativas de montagem, como plano-contra-plano, plano geral, closes etc. Cada um existe porque cineastas achavam que era com eles, usados em determinadas situações narrativas, que se contaria uma história ou se registraria um fato da melhor forma possível, para o espectador. É esse “achavam que”, que denuncia por de trás de tudo, que se pratica no mundo, um ser pensante que acredita em algo baseado em outro algo. Em resumo, um ser ideológico.

Sendo assim, o cinema, em especial, por “reproduzir” o mundo (que é cheio de ideais), é nada mais do que um dispositivo idealizado (por ser inventado, não só na forma narrativa como na forma técnica, para ser usado com determinadas intenções ideológicas) que, a partir de um filme, transmite ideologias de seu criador (o cineasta) sobre uma releitura de mundo observado pela ótica do próprio realizador audiovisual.

"Fica o questionamento: até que ponto nossas ideologias nos pertencem, ou de fato são nossas ideologias, e não de outros?"


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

UP - Altas Aventuras

O filme UP consegue fazer uma ponte entre o grande sonho e desejo de Carl Fredricksen com o que de fato representa a concretização dos sonhos em nossas vidas.

Está totalmente explícito em cerca de dez minutos iniciais do filme todos os sonhos que nós costumamos ter a respeito de nossos futuros. Entre eles a constituição de uma família, a harmonia e a paz que, de alguma forma, buscamos. Sonhos que nem sempre conseguimos concretizar da forma que gostaríamos.

Na animação, dirigida por Pete Docter (Monstros S.A.), Carl Fredricksen, ainda quando pequeno, sonhava em ser um dia como seu herói, Charles Muntz, um corajoso desbravador que explorava terras distantes a bordo de um gigante dirigível de luxo. O menino acidentalmente conhece Ellie, uma menina que tem a mesma admiração por Muntz, e, assim como Fredricksen, sonhava em um dia viajar até uma cachoeira perdida na América do Sul. Os dois crescem, casam-se e alimentam a esperança de terem filhos, compartilharem momentos maravilhosos e conheceram a tão sonhada cachoeira, chegando até mesmo a pintarem na parede da casa a imagem de uma casinha em cima de um morro com uma grande e bela queda d'água.

O tempo passa e Ellie não consegue engravidar. E o dinheiro que guardavam para realizarem seus sonhos acaba por toda a vida do casal, de alguma forma, escorrendo feito areia por entre as mãos. Um pouco, era gasto com reparos na casa, outro pouco com o carro e, outros tantos com bens materiais e emergências que iam surgindo. Quando se dão conta, ambos já estão idosos e não fizeram o que tanto sonhavam na juventude.

Um fator realmente relevante, já que nós mesmos passamos nossos dias pensando no futuro, o que queremos construir e encontrar nele quando nele chegarmos. Planos que, assim como o dinheiro de Carl e Ellie, guardado com propósitos, acabam por escorrer por entre nossos dedos. Desviados de seu verdadeiro sentido de existir: Viver.

Mas sempre há tempo para acordar, meter a cara pela janela e olhar adiante. Depois da morte de Ellie (que no filme representa explicitamente a vida e a motivação de vivê-la), Carl Fredricksen torna-se um velho rabugento que leva uma vida entediante e sem perspectiva alguma. Algo que ocorre somente até o dia em que passa a sentir-se pressionado pelas mudanças além de sua casa. Os altos prédios que se erguem ao redor de sua minúscula "casinha de bonecas" dos anos 60.

Ninguém fica parado no tempo e nem o tempo pára para que nós nos acostumemos às novas mudanças, nem sempre tão benéficas. Os altos prédios pressionando a vida de Carl nunca fizeram parte de seu sonho de juventude. São gigantescos intrusos que levam o velho vendedor de balões a tomar uma decisão radical. Mudar-se para a tão sonhada cachoeira na América do Sul, a bordo de sua casa voadora, erguida por balões de hélio.

Deve ser mais ou menos aquele ponto de virada que temos várias vezes em nossas vidas aonde, ao percebermos que nosso caminho está se desviando de nossas metas, surtamos enlouquecidos e fazemos loucuras em busca da tão sonhada felicidade. E como Carl, planejamos exatamente como sair de fininho, programamos cada passo a afim de que nada saia errado, pois já não temos mais tanto tempo a perder. É como abrir a porta e gritar "Eu vou e nada vai me impedir!"

E daí algumas pessoas vão reclamar se aparecerem os imprevistos, e por isso até mesmo as vezes partem sozinhas rumo às suas grandes aventuras. Porque quando se está sozinho a chances de imprevistos acontecerem são bem menores. Que engano! Qual terá sido a surpresa do velho Carl ao abrir a porta da varanda de sua casa voadora e se deparar com o pequeno escoteiro mirim Russel. Provavelmente nem um pouco planejado.

O que fazer? Cortar os balões e descer? Despachar o moleque, atrasando mais uma vez o grande sonho? Ou... Levá-lo na viagem e, de lá, quando se chegar na América do Sul, dar um jeitinho de mandar o garoto de volta pra casa?

Muitas vezes colocamos nossos planos à frente de tudo e de todos e nem nos damos conta do que isso pode causar lá na frente. Mas o bom da vida é que assim como em Up nada acontece por acaso, tudo demonstra fazer um sentido no final. basta termos olhos e sensibilidade para enxergarmos o sentido. Ter levado Russel na viagem não só fez brotar mais imprevistos na viagem como também meteu Car Fredricksen em confusões inesperadas.


Ao chegarem na América do Sul, por conta de um nevoeiro, Fredricksen aterrissa sua casa ambulante no lado contrário ao da cachoeira, o que o deixa irritado. Ele está preso através de uma mangueira de jardim à casa, que paira no ar como um dirigível maluco. Não pode soltá-la, se não a perde e não teria como voltar para sua vida (seu mundinho), a qual ainda é tão apegado. E, tão pouco, pode andar rápido o suficiente para atravessar a mata, a fim de chegar à cachoeira de seus sonhos.

Um tapa em nossas próprias caras, pessoas apegadas não somente aos bens materiais como também aos nossos costumes e rotinas. Sempre vislumbrando nossos objetos de desejos ao longe e correndo para alcançá-los, sendo que já carregamos muito mais do que podemos levar em nossa trilha de aventuras. Em nossas vidas.

O filme não poderia ser melhor. Russel encontra e faz amizade com um pássaro exótico que está sendo perseguido por um caçador determinado. O que faz com que Ele, o escoteiro mirim, e Fredricksen acabem por tornarem-se também alvos do tal caçador. Russel bate o pé para convencer o velho a ajudar a salvar o pássaro, chamado por ele de Kevin. Enquanto Fredricksen, rabugento, insiste em chegar até o topo da cachoeira, nem que morra tentando fazer isso.

Qual não é a surpresa do velho vendedor de balões quando depara-se com o caçador, seu herói da infância, Charles Muntz e seu dirigível de luxo. Que nos mostra que nem sempre nossos heróis são exatamente o que pensamos ser. Não somos nós que devemos querer ser como nossos desbravadores e heróis, mas nós mesmos que deveríamos ser os desbravadores e heróis das nossas próprias aventuras, sejam elas quais forem.

E sim, acredito que ainda vamos teimar, achar que estamos nos atrasando para nossos compromissos fúteis. Nossos sonhos feitos da mais perecível ilusão. Vamos bater o pé, dar as costas para o que realmente há de sólido e de concreto. Vamos marchar até nossa montanha com cachoeiras e realizar o tão sonhado sonho.

O que será que Carl Fredricksen sentiu ao alcançar sua meta? ... E sozinho.

Ele, a casa, todos os pertences e a mais bela das vistas. E Só.

UP não é um filme feito com a mais surpreendente das técnicas de animação, mas zela por todo um acabamento fino necessário, não para impressionar nossos olhos, mas para conquistar nossa alma. Não necessita de muito, mas sim de muito pouco para nos conquistar como espectadores.

Estamos sempre almejando a concretização de grandes sonhos que, por estarem de certa forma tão distantes, acabamos trabalhando duro e por muitos anos para conquistar. "Muitos anos" suficientes trabalhando para até mesmo se esquecer do porquê de nosso suor. E, vezes até, para alcançarmos nossas metas e nos sentirmos vazios por dentro.

UP faz uma reflexão simples, emotiva e bem humorada sobre aquilo que buscamos pra nós. Sobre os imprevistos que nos deparamos no caminho e o quanto realmente vale a pena buscar algo tão longe quando se tem de abrir mão da ética comum.

Carl viveu uma vida linda ao lado de Ellie enquanto perseguia um sonho romântico. Colocou todas sua energia naquela aventura. E agora estava lá, abrindo o livro "quase secreto" de Ellie, onde em uma parte se podia ler "coisas que que tenho que fazer". Por um momento o velho rabugento pensa que se virasse a página iria encontrar anotações de todas as coisas que não conseguira fazer sua esposa realizar enquanto viva, mas, depara-se com páginas de fotos contendo todos os melhores momentos do casal, e, com uma rápida mensagem rabiscada no fim. Algo do tipo "Essa aventura você já realizou, agora parta para as próximas".

E é assim que Carl Fredricksen joga todos os móveis e pertences de uma vida toda, para fora da casa, para que essa pudesse alçar voo novamente, depois de os balões de hélio não estarem tão cheios. Pois só com a leveza do necessário é se poderia prosseguir com a aventura.


Carl encontra e salva Russel, que caíra nas mãos de Muntz, ao tentar salvar Kevin, o pássaro exótico. E, antes de voltarem para casa, dão fim ao caçador, jogando-o na casa com balões que, naquele momento, despenca entre as nuvens, desaparecendo com toda e qualquer lembrança do passado.

Enquanto grandes nomes do cinema se matam para criarem grandes obras primas que exprimam um infinito de significados, UP nos deixa sua mensagem profunda e simplificada. A de que são os imprevistos que compõe uma aventura de verdade, mesmo que se planeje uma vida toda e os resultados sejam diferentes do programado, ainda assim, se terá vivido uma grande aventura.

Mais uma vez, o mérito é da Pixar, que prova que é possível fazer cinema comercial de grande qualidade e com excelente conteúdo. E sem se deixar levar pelas ilusões à beira do caminho da medíocre tentativa de se obter obras-primas.


Leia mais em: Jovem Nerd



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